FICCA 2025: O cinema da floresta ecoa em Porto
- Francisco Weyl
- 25 de fev.
- 8 min de leitura
Atualizado: 25 de fev.
O FICCA se consolida, mais uma vez, como um espaço de projeção de vozes silenciadas e de preservação das narrativas amazônidas, latino-americanas e contra-hegemônicas. No coração de Porto, o cinema da floresta ecoa.
O Festival Internacional de Cinema do Caeté (FICCA) desembarcou em Porto, Portugal, para realizar as primeiras sessões de sua décima edição, levando à Livraria Gato Vadio uma seleção de filmes que atravessam a poética e a luta do cinema latino-americano-amazônida. Durante todo o mês de janeiro de 2025, o festival promoveu estreias, homenagens e debates que resgatam narrativas de resistência e memória, especialmente no contexto amazônico.
10 de Janeiro - A Resistência do Cinema na América Latina
A abertura do festival ocorreu sob a condução de Francisco Weyl, que deu início à jornada cinematográfica com uma mística introdutória. O momento seguinte foi marcado por uma homenagem a Paulo Miranda, cineasta negro e poeta das águas marajoaras. Sua filmografia, com títulos como O Ajuntador de Cacos e Missão Mapuá, transformou o cinema em uma ferramenta contra o esquecimento, dando voz à juventude do Marajó e estimulando o audiovisual como um ato de resistência.
Na sequência, a estreia internacional do filme Solanas Explicado às Crianças, de André Queiroz. A obra acompanha a luta de uma comunidade de pescadores periféricos contra os efeitos devastadores da mineração ilegal e da pesca industrial, abordando a força dos valores ancestrais em risco.
17 de Janeiro - Realismo e Magia no Cinema Amazônida
O segundo dia de programação mergulhou no imaginário amazônico. A estreia de Murerueua, Atinãna, de Roberta Mártires, traouxe uma leitura contemporânea da lenda de Matinta Pereira, entrelaçando ancestralidade e natureza. Em seguida, Quem Cortou a Língua de Feiticeira que os Donos do Mundo Temiam?, do Coletivo Resistência Marajoara, se debruçou sobre a visão de Dalcídio Jurandir e a presença dos Caruanas na Ilha de Soure.
Com seu #Feitiço, Rosilene Cordeiro, revisitou os mitos das icamiabas, guerreiras lendárias que atravessam o tempo, oscilando entre o sagrado e o profano, a fábula e a realidade.
24 de Janeiro - Cinema, Memória e Direitos Humanos
A intersecção entre arte e resistência política foi o eixo do terceiro dia do festival. Artesania Tracuateuara, do Coletivo Quilombo do Torre, retrata a trajetória de Dona Maria, guardiã das tradições artesanais em Tracuateua, mostrando como o saber popular é uma forma de resistência contra a destruição ambiental.
O documentário Nas Águas do Tijoca, o Patal Conta a sua História revela a dura realidade da comunidade ribeirinha do rio Tijoca, onde uma frágil ponte de madeira simboliza os desafios e a esperança de um povo. Já A Arte dos Direitos Humanos de Lúcia Gomes, do Coletivo Quatipuru, mergulha na obra de uma artista paraense que transforma elementos cotidianos em manifestações de resistência e inclusão.
Fechando a noite, Do Lugar Onde Se Vê, de Denis Bezerra, celebra a memória e o teatro através da história de Cláudio Barradas, figura icônica do teatro amazônico.
Depois da exibição houve debate com o autor, através da Interenet, e, presencialmente, o professor e pesquisador Paulo Morais-Alexandre.
31 de Janeiro - Encerramento e Reflexões
A programação de encerramento da primeira etapa internacional continuaou a tradição do festival de unir cinema, identidade e resistência em um último suspiro de reflexão e celebração.
A noite fechou com a estreia do filme rodado na oficina de Cinema de Guerrilha CADA REALIZADOR UM TERRORISTA E CADA FILME UM ATENTADO 23h30, seguindo-se da projeção do filme Woimmer du bist [Philip Beck] e o concerto de encerramento de BKili.
Com o mote “Cada realizador é um terrorista e cada filme um atentado”, o X FICCA desenvolveu ainda uma OFICINA DE CINEMA DE GUERRILHAS ( 10, 17, 24 E 31 de Janeiro), em parceria com FICCA e o Núcleo de Realizadores da Livraria Gato Vadio, sendo esta uma experiência prática formatiiva que decorreu concomitante às atividades do festival sob a orientação de Francisco Weyl
Confira a programação completa
X FICCA - FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINEMA DO CAETÉ
Livraria Gato Vadio, Porto, 10, 17, 24 e 31 de Janeiro de 2025
Programa Oficial
10 de Janeiro - A resistência do cinema na América Latina
20h45, MÍSTICA DE ABERTURA - Francisco Weyl
21h - HOMENAGEM a Paulo Miranda
Paulo Miranda foi um cronista das margens, um poeta das águas marajoaras. E o O X FICCA, enquanto festival contracorrente, orgulha-se de o homenagear, pelo seu trabalho no interior do Pará, em lugares muitas vezes esquecidos. Fazer cinema onde a câmera é também uma arma contra o esquecimento. Era um cineasta negro, cuja postura política e compromisso com a resistência amazônica ecoavam em cada ação e em cada palavra. Sua filmografia, marcada por títulos como O Ajuntador de Cacos e Missão Mapuá, é um legado que transcende o cinema. Sua relação com o Marajó transcendeu a arte, tornando-se parte do tecido social, trabalhando lado a lado com a juventude local, despertando talentos, estimulando o audiovisual como ferramenta de resistência e dando voz a quem, muitas vezes, era silenciado.
21h - “Solanas Explicado às Crianças” (Filme de André Queiroz, em ESTREIA, 75Min)
O filme trata da luta e organização de uma comunidade de pescadores pobres, pretos e periféricos contra os efeitos nefastos da mineração ilegal e a pesca industrial. Se trata da defesa de valores comunais e ancestrais que correm grave risco de exclusão, apagamento como efeito da voracidade neoliberal. No filme, Ana, pescadora, marisqueira, é a alegoria da mulher resiliente que luta para a formação de seu único filho, Pino, como principal liderança de sua comunidade. FICHA TÉCNICA: É uma realização da Wallaroo Corp. em associação com Mad Produções e em parceria com o Realizador da obra, André Queiroz; produção executiva de Aimée Borges e Daniel Gravelli. Apoio da FAPERJ, profissionais e estudantes dos cursos de Estudos de Mídia e Cinema da Universidade Federal Fluminense, PUC-Rio e Escola de Cinema Darcy Ribeiro.
17 de Janeiro - “Realismo e Magia no Cinema Amazônida”
20h45, “Murerueua, Atinãna” (Fime de Roberta Mártires, em ESTREIA, 12Min)
Evocação à força feminina a partir da mítica ave Matinta Pereira, estabelecendo uma conexão simultânea entre a ancestralidade e a natureza, a partir dos cenários às margens do Rio Tucunduba, que atravessa quatro bairros da capital Belém do Pará (Marco, Canudos, Terra Firme e Guamá), antes de desaguar no Rio Guamá.
FICHA TÉCNICA: Performance e edição: Carol Magno; Imagens, Figurino e Realização: Roberta Mártires
“Quem cortou a língua de feiticeira que os donos do mundo temiam?” (Coletivo Resistência Marajoara, 7Min)
O filme narra a mística Amazônia de Dalcídio Jurandir, onde os Caruanas – seres espirituais protetores – mediam a relação entre humanos e natureza. Ambientado na Ilha de Soure, com sua vibrante diversidade cultural e natural, o filme revela um cenário em que arte, tradição e resistência convergem. A narrativa é atravessada pelo olhar de jovens marajoaras envolvidos no projeto "Resistência Marajoara". É um convite à reflexão sobre a força das tradições amazônicas e o papel da arte como resistência e resgate da identidade.
#Feitiço (Rosilene Cordeiro, Em ESTREIA internacional, 20Min)
Entre a lenda e a fábula, #Feitiço mergulha nos mitos das icamiabas – mulheres guerreiras de um feminino visceral e indomável. Filhas de Eva, irmãs de Maria, e guardiãs de uma linhagem que pulsa entre o sagrado e o profano, elas desafiam o tempo em terras jamais alcançadas por olhos masculinos. Com o peito marcado por escolhas ferozes, essas mulheres renunciam à vulnerabilidade em nome da luta. Suas flechas buscam sempre o invasor, enquanto seus corpos tecem ciclos de vida e morte. Filhos nascidos de encontros furtivos sob a luz da lua carregam um destino ambíguo: a morte breve, o exílio ou a saudade eterna de um útero divino. É uma história de retornos, de buscas sem fim, e de renascimentos – onde o passado se entrelaça com o presente em uma dança ritual que evoca a força primitiva da Mãe Universal. FICHA TÉCNICA: Roteiro e direção: Rosilene Cordeiro Cinegrafia/Edição: Mateus Moura/ Rosilene Cordeiro Montagem: Rosilene Cordeiro/ Mateus Mateus Atuantes-performers: Denis Bezerra Francisco Weyl Mateus Moura Rubens Santa Brígida
24 de Janeiro - “Cinema, memória e direitos humanos”
20h30, “Artesania Tracuateuara” (Coletivo Quilombo do Torre, em ESTREIA, 12Min)
Reconhecida com o Prêmio Mérito Cultural no Festival Internacional de Cinema do Caeté, Dona Maria, aos quase 70 anos, é a guardiã das tradições comunitárias no quilombo Torre, em Tracuateua, Pará. Seu trabalho artesanal é um ato político que desafia a destruição ambiental e o apagamento cultural. Com o apoio de seus filhos, como Tigrita e Madalena, ela mantém vivas as histórias e saberes herdados de gerações passadas, tecendo um futuro onde a resistência se enraíza no cuidado com a terra e no fortalecimento dos laços comunitários.
“Nas águas do Tijoca, o Patal conta a sua História” (Coletivo Urumajó, em ESTREIA, internacional, 16Min)
O filme mergulha na realidade da comunidade do Patal, situada às margens do rio Tijoca, onde os desafios diários se entrelaçam com a força de seus moradores. Narrado através da perspectiva de Patal, o curta traça um retrato vívido de uma comunidade marcada pela precariedade de uma ponte de madeira que conecta vidas, sonhos e sustento. Ao acompanhar alunos, professores e mulheres catadoras de sururu, o filme revela como a ponte se tornou tanto uma barreira quanto um símbolo de resiliência. Entre travessias perigosas, histórias de perda e esperança, e a luta pela construção de uma nova ponte de concreto, emergem reflexões sobre pertencimento, união comunitária e a relação com o ambiente. Nas Águas do Tijoca é um convite sensível e poético para olhar além da estrutura física da ponte, enxergando as águas que carregam histórias, os gestos de sobrevivência e a força de um povo que busca transformar desafios em oportunidades.
“A arte dos Direitos Humanos de Lúcia Gomes” (Coletivo Quatipuru, Em ESTREIA, internacional, 16Min)
O filme é uma imersão na obra de Lúcia Gomes, artista paraense cuja arte transcende a estética e abraça a transformação social. Situado na pequena Quatipuru, onde a exposição "Paz" ganha vida, o documentário revela como Lúcia utiliza elementos simples e acessíveis — pipas, balões biodegradáveis e travesseiros — para construir narrativas poderosas que denunciam a discriminação, o racismo e a intolerância, enquanto promovem a memória histórica e os direitos humanos. Entre performances e intervenções comunitárias, Lúcia transforma a arte em um ato de resistência e inclusão. Suas obras, como "Resistência" e "Democracia," convidam o público a refletir e participar, defendendo causas como educação, acesso à água e justiça social. Com toques de ludicidade e pedagogia, ela une tradição e contemporaneidade, resgatando memórias do Carimbó e das vítimas da ditadura militar, e denunciando os opressores de ontem e de hoje.
“Do lugar onde se vê” (Denis Bezerra, Em ESTREIA, internacional, 7Min)
Uma celebração da memória, do teatro e da escrita, conduzida pela trajetória de Cláudio Barradas, ícone do teatro amazônico. O filme mergulha na relação entre a vida e a ficção, revelando como Barradas transforma vivências pessoais em enredos vibrantes com humor, ironia e sensibilidade. A narrativa explora o poder das lembranças como um baú de vivências que alimenta a criação artística, mostrando Barradas como um contador de histórias nato, cujas experiências moldam personagens e cenas.
FICHA TÉCNICA: Documentário a partir do projeto do Grupo de Pesquisa Perau – Memória, História e Artes Cênicas na Amazônia, liderado por Denis Bezerra.
22h- RODA DE CONVERSA - Participação do Professor-Doutor Paulo Morais-Alexandre (Escola Superior de Teatro e Cinema - Instituto Politécnico de Lisboa) e - Via Internet - do Professor-Doutor Denis Bezerra (Programa de Pós-Graduação em Artes - Universidade Federal do Pará)
31 de Janeiro - “O Cinema líquido entre rios, do Amazonas ao Douro”
21h30, Estreia do filme rodado na oficina de Cinema de Guerrilha CADA REALIZADOR UM TERRORISTA E CADA FILME UM ATENTADO
23h30 - Projeção do filme Woimmer du bist [Philip Beck]
CONCERTO DE ENCERRAMENTO [BKili]
OFICINA DE CINEMA DE GUERRILHAS
DIAS 10, 17, 24 E 31 (17h30-20h30)
O FICCA e o Núcleo de Realizadores da Livraria Gato Vadio convidam para esta experiência prática formatiiva que decorrerá concomitante às atividades do festival sob o mote “Cada realizador é um terrorista e cada filme um atentado”.

X FICCA - FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINEMA DO CAETÉ
Livraria Gato Vadio, Porto, 10, 17, 24 e 31 de Janeiro de 2025
REALIZAÇÃO:
LIVRARIA GATO VADIO + FESTIVAL INTERNACIONAL DE CINEMA DO CAETÉ [FICCA] + MULTIFÁRIO + ARTE USINA CAETÉ
PARCERIA INSITUCIONAL:
CAPES + PPGARTES-UFPA + GRUPO DE PESQUISAS PERAU + ESCOLA SUPERIOR DE TEATRO E CINEMA + INSTITUTO POLITÉCNICO DE LISBOA
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